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Quarta, 02 de dezembro de 2020

Curiosidades

Pesquisadores do Butantan podem ter descoberto primeiro anfíbio peçonhento da história

Animal possui glândulas de veneno como às das serpentes, algo que nunca foi visto antes.

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Um animal conhecido popularmente como cobra-cega (ou cecília) pode revolucionar a forma que a ciência lida com os anfíbios. Segundo a descoberta feita por pesquisadores do Instituto Butantan com o apoio da Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo), esse animal que vive no ambiente subterrâneo, possui glândulas na parte inferior dos dentes que têm a mesma origem das glândulas de veneno das cobras, algo nunca visto antes nessa classe animal.

Ao contrário das serpentes, que injetam veneno durante a picada, anfíbios não possuem peçonha, apesar de serem venenosos. Eles liberam veneno quando se sentem ameaçados pelos predadores, um tipo de defesa passiva. “As cobras, por exemplo, têm glândulas que parecem bolsas, envolvidas por músculos. A secreção venenosa vai sendo produzida e depositada nesse local. Quando a cobra pica, ela comprime essa bolsa e a peçonha sai por pressão através do dente. Os sapos, por exemplo, possuem glândulas na pele do corpo e quem as aciona é o próprio predador”, exemplifica Carlos Jared, pesquisador do Instituto Butantan e coordenador do estudo.

Mas, ao contrário do que ocorre em sapos e muito semelhante a como se comportam as cobras, o estudo brasileiro publicado na iScience mostra que as cecílias possuem glândulas na boca com canais que direcionam à base dos dentes. O achado dessa anatomia incomum foi feito por Pedro Luiz Mailho-Fontana, primeiro autor do estudo, que realiza estágio de pós-doutorado no Instituto Butantan.

“A gente estava estudando a cabeça desse animal e notou glândulas totalmente diferentes e de tamanho muito maior. Fizemos cortes muito finos e seguidos uns dos outros. Reconstruí essa estrutura tridimensionalmente e vimos que saía um duto dessas glândulas, um canal terminando na ponta dos dentes. Aí sim foi uma coisa inesperada”, relembra o pós-doutorando. A localização da estrutura já dava indícios, mas Pedro “perseguiu” a origem dessas glândulas, como explica seu orientador: “elas vinham de uma mesma lâmina do embrião que, nas cobras, dava origem aos dentes. É incrível! Possivelmente existe o que a gente chama de convergência adaptativa”, vibra Jared.

As futuras peçonhentas

Exímias predadoras, as cobras-cegas podem se alimentar de larvas de insetos, minhocas, pequenas cobras, lagartos, filhotes de camundongos, ratos ou marsupiais. Para isso, um conjunto de músculos na cabeça, duas fileiras de dentes superiores e a capacidade de morder e agarrar garantem um arsenal precioso a favor delas. A descoberta das glândulas só vem a acrescentar nesse enredo: se espera que as substâncias da suposta peçonha tenham ação paralisante, capaz de atordoar a presa ou matá-la, facilitando o trabalho das cecílias.

A pesquisa já conta com a comprovação anatômica, mas apenas a análise bioquímica poderá dizer que as cobras-cegas são, de fato, peçonhentas e, consequentemente, os primeiros anfíbios a possuírem uma defesa ativa. A característica só contribuiria para o perfil totalmente diferente desses animais. Eles vivem de baixo da terra, não têm patas, são capazes de realizar reprodução interna, possuem os olhos bem reduzidos, só conseguem ver luz e são os únicos vertebrados com tentáculos. Uma junção de fatores que torna esse anfíbio quase inacessível e ainda pouco conhecido.

As cobras-cegas possuem 214 espécies espalhadas pelo mundo com uma distribuição bem restrita aos trópicos. Para comparação, a ordem Anura (de sapos, rãs e pererecas) e a Urodela (de salamandras e tritões), juntas, totalizam 7.977 espécies

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